Crítica: Desejo e Reparação

Por Lucas Marques

Nota: ***** (5 de 5 estrelas)

Até que ponto a percepção pode influenciar nosso conceito de realidade? Até que ponto a perspectiva do que vemos pode ser realmente tratada com um conceito de realidade?

Esse pensamento retrata bem o contexto psicólogico presente no segundo longa dirigido pelo britânico Joe Wright; cujo último trabalho fora o ótimo Orgulho e Preconceito, indicado à quatro Oscars e outros ínumeros prêmios ao redor do Mundo. Mais uma vez o diretor opta por adaptar uma obra literária, dessa vez escrita pelo escritor britânico Ian McEwan, e roteirizado por Christopher Hampton – que ganhou o Oscar justamente por adaptar outra obra literária em Ligações Perigosas de 1988.

A história se passa na Inglaterra de 1935, habituada numa rica propriedade rural onde vivem a matriarca e suas duas filhas – a independente Cecília (Keira Knightley) e a mais nova, de 13 anos, Briony (Saoirse Ronan). Nesse local também vive uma simples governanta e seu filho Robbie (James McAvoy), cuja sofisticada educação fora adquirida graças ao auxílio de seu falecido patrão. Cecília e Robbie têm uma forte atração um pelo outro, e essa força motriz sentimental é má interpretada por Briony, que acaba sendo a juíza da relação ao julgar aquilo que seus olhos presenciaram.

O conceito psicológico do filme de que, o ponto de vista pode mudar toda percepção com que a realidade é vista, automaticamente me fez lembrar da obra prima do mestre Akira Kurosawa, Rashômon –  no qual o diretor mostra conclusões de um mesmo crime através do olhar de cada testemunha envolvida.

O filme montado numa estrutura não linear, é apresentado primeiramente pela visão criada da personagem Briony e, posteriormente, o mesmo fato é reapresentado como realmente ocorreu. Entretanto, se a imaginação vívida da menina faz jus à sua precocidade em certos aspectos, isto não significa necessariamente que ela é madura o bastante para compreender tudo o que vê. Personagem esta, interpretada de maneira surpreendente pela jovem atriz Saoirse Ronan, que lhe confere um ar de precoce maturidade e superioridade, e com isso seu elevado julgamento crítico; e a ambiguidade com que esta, friamente, julga Robbie, mesmo tendo sido apaixonada por ele no passado, lhe atribui uma característica muito complexa e intensa para uma personagem tão jovem.

James McAvoy, traz à personagem de Robbie um ar de ingênua simplicidade o que contrasta com sua instintiva malícia e sarcasmo, e isso de certo modo, justifica seu fascínio pela esnobe e idealista Cecília.

Novamente trabalhando com Wright, Keira Knightley, atribui à Cecília um ar independente, cujo desapego pela futilidade da vida sofisticada que leva, é retratado quando esta larga todo seu conforto, ao ser separada de seu único amor, para viver uma vida simples em uma humilde casa.

Completando o elenco, Brenda Blethyn, Romola Garai e Vanessa Redgrave (que apesar de aparecer só ao final do filme, condensa todo o sofrimento adquirido por Briony, em sua intensa e expressiva atuação).

A equipe técnica é praticamente a mesma de Orgulho e Preconceito, ou seja, mais uma vez a direção de arte, fotografia e figurinos são excepcionais – à direção de arte e à fotografia couberam o ofício de retratar Londres de uma forma poética e lírica, utilizando cores vivas e vibrantes e atribuindo uma iluminação intensa aos planos, com isso trazendo às cenas um ar de nostalgia e serenidade; por outro lado retratando com cores frias e neutras as cenas da Guerra e todo o perído posterior ao aprisionamento de Robbie.

E novamente os figurinos de Jacqueline Durran (que também realizou os figurinos do trabalho anterior de Wright), refletem toda a elegância das altas classes sociais, e dos costumes da sociedade dos anos 30.

Joe Wright, que já mostrara sua competência e talento em sua estréia com Orgulho e Preconceito, realiza neste filme mais um excelente trabalho de direção, conduzindo uma narrativa não linear e com frequentes saltos temporais, com segurança sem tornar o longa confuso ou desinteressante. Mas o que realmente não me sai da cabeça é o absolutamente fantástico plano-sequência na praia de Dunkirk: durando cerca de cinco minutos, este plano demonstra o enorme talento de Wright, que exibiu sequências similares em seu trabalho anterior; aqui ele acompanha Robbie enquanto este caminha chocado pela praia que serviria de ponto de retirada das tropas britânicas, o diretor retrata todo o caos e o desespero dos soldados que, cansados e doentes, ainda devem destruir todo e qualquer veículo, equipamento ou animal que possa servir de ajuda aos alemães – a cena é realizada com centenas de figurantes, e durante a cena o número de ações acontecendo, enquanto a câmera passeia com Robbie pela praia, é absurda; o bem sucedido plano-sequência deve sua eficaz realização principalmente ao trabalho de coreografia, mas também à equipe de efeitos visuais e, é claro, do diretor de fotografia Seamus McGarvey.

Desejo e  Reparação é mais um excelente trabalho do jovem diretor britânico que se revela cada vez mais um talento promissor no ramo cinematográfico. É um trabalho que sobressai-se em relação ao próprio gênero, dono de um roteiro que transpõe um romance literário de forma eficaz e com sensibilidade ímpar e que foge de clichês descartáveis característicos. Sem sombra de dúvidas, um filme imperdível!

Abraços e vida longa à magia cinematográfica!

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~ por habibsarquis em 21/07/2009.

7 Respostas to “Crítica: Desejo e Reparação”

  1. Eu não conheço o trabalho, mas segundo diz você, no texto, deve ser bom.

  2. Já li os dois livros e vi o o filme de Orgulho e preconceito.Não tava sabendo que ia sair o filme de Desejo e Reparação,quero assistir logo.Muito bom post,e pra quem não leu os livros eu os aconselho.São ótimas leituras,classicos!

    • Fala Igor, então o filme já foi lançado – ele é de 2007.
      Pode conferir. Abraços!

  3. Esse filme é fantástico, ainda mais pela atuação da Keira Knightley, ela é fantástica! Muito bom o post também, seu blog está sempre de parabéns! Abraço!

  4. Crime visto pelos olhos da testemunha é um dos meus favoritos. Sou fã de Agatha Christie.

  5. Querido amigo avassalador… Engraçado, não assisti ao filme exatamente por “pensar” nas semelhanças entre orgulho e preconceito com a mesma atriz.. agora, com sua resenha vou locar e ver … fiquei interessada.

  6. Eu acho esse filme maravilhoso e com certeza esta no topo na lista dos meus preferidos, o diretor Joe Wright consegue colocar nas obras dele uma sensibilidade e delicadeza que a gente fica realmente em duvida se é apenas pessoas atuando.
    A fotografia é ótima e o roteiro idem, além dos proprios atores serem de primeira.

    http://www.teoria-do-playmobil.blogspot.com

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