Crítica – South Park:Maior, Melhor e Sem Cortes

Por Lucas Marques

Nota: *****(5 de 5)

O humor sempre se mostrou uma arma imponente como contexto crítico moralista ou político ao longa das décadas. No cinema essa poderosa arma rendeu verdadeiras obras primas que, além de seu valor cinematográfico, são possuidoras de argumentos ácidos e satíricos contra a natureza humana e sua essência egoísta e ambiciosa, que ainda hoje permanecem extremamente atuais. Como exemplo, as obras de Charles Chaplin, Stanley Kubrick e do grupo britânico Monty Python.

Prova desse argumento acima pode ser constatada nesse primeiro longa metragem do seriado televiso, South Park. Criada pela dupla Trey Parker e Matt Stone, a série estreou em solo americano em 1997 e atualmente está em sua 13° temporada.

Parker e Stone, descaradamente já anunciam a pretensão e o tom que seu longa irá adotar logo na cena inicial – na qual é evidente o tom satírico aos filmes musicais norte americanos, quando a pacata cidadela do Colorado, e seus respectivos moradores nos são apresentados através de uma alegre canção.

A trama se inicia com os quatro protagonistas, Eric, Stan, Kyle e Kenny que juntos assistem ao obsceno filme de Terrance e Phillip (dois comediantes fictícios). Tal atitude, repetida pelas outras crianças da cidade, resulta na incorporação de palavras obscenas e depreciativas ao vocabulário delas. Seus pais, chocados e irados com tal efeito em seus filhos, resolvem fundar uma organização para assassinar, literalmente, os singulares comediantes e declarar guerra à sua terra natal, o Canadá. Com todo esse caos entre os países, a história se desenrola cheia de reviravoltas e surpresas, como a pretensão de Satan e Saddam Hussein em governar toda a Terra.

O tom de audácia crítica e irônica adotada pela dupla, em diversos assuntos, é genial. Não há o menor receio em fazer piadas com figuras religiosas e políticas como Gandhi e Hitler, que aparecem juntos no inferno – também há o descaso de Eric a Jesus quando Stan pergunte sobre o clitóris. E o que dizer da ideia de colocar Saddam Hussein (animado através de sua foto real, o que intriga ainda mais) como um amante ativo e pervertido de Satan (sendo que o líder político ainda era vivo na época de lançamento do longa) – e a bizarrice é tanta que a dupla realiza uma crise de relacionamento entre os dois, comuns na vida de um casal normal (e isso só não é mais bizarro, pois em seguida um número musical totalmente nonsense é realizado pelo Senhor da Escuridão).

Esses momentos  e situações citadas acima já proporcionariam um divertido filme, mas South Park vai além e  se auto critica – realizando um interessante exercício metalinguístico sobre a liberdade de expressão e o inexplicável fascínio e sucesso que músicas e programas com mensagens degradantes e linguagem depreciativa, exercem na sociedade; e constatar que seus criadores visaram esse fato no final do século passado, e que nos dias atuais a situação só se agravou, é algo desesperador.

O longa vai mais fundo ao trazer à tona o preconceito e racismo entre países e raças – é inexplicável que ainda existam desavenças entre canadenses e americanos, no filme esse fato é ridicularizado e exagerado (percebam o modo como americanos e canadenses são desenhados) gerando um conflito ficcional, mas que atualmente não me assustaria se algo desse tipo fosse taxado como iminente. O descaso aos negros pelos norte-americanos também é pautado – como o fato de apresentar um escudo humano às forças armadas dos EUA, formado unicamente por afro-descendentes.

Há ainda diversas outras sacadas inteligentíssimas como a ‘ópera’ da degradação humana ao final do filme, a analogia ao Holocausto, um clitóris gigante que aconselha e encoraja um dos protagonistas e a evidente referência ao clássico Laranja Mecânica na cena da implementação do chip inibidor.

South Park é um filme obrigatório, um ousado trabalho cinematográfico que reside sua maior força e trunfo nos discursos críticos e sarcásticos contra a hipocrisia dos seres humanos – claro, tudo isso extremamente engraçado e divertido. Um dos filmes mais corajosos e questionadores da rica década cinematográfica de 90.

Abraços e Vida Longa à Magia Cinematográfica!

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~ por habibsarquis em 28/07/2009.

7 Respostas to “Crítica – South Park:Maior, Melhor e Sem Cortes”

  1. EU NEM GOSTAVA MUITO…

  2. Eu também gosto.
    E é muita irreverência, legal mesmo!!!

  3. Kurto prakaramba south park muito engraçado..

  4. Interessante, deu até vontade de assistir ^^

  5. South Park é MARA!
    Quero veeeeeeer

    http://www.teoria-do-playmobil.blogspot.com

  6. A cena do Satan do lado de fora do quarto, imaginando um jeito de terminar a relação com Saddan…ahaHAHAHA!!! Como um todo, tem várias sacadas, que se vc estiver desatento,deixa passar fácil…ironia da fina!! : D

  7. De graça já gostava da animação, com as boas dicas dadas o interesse cresceu… Realmente o humor inserido pelo desenho tem sacadas que vão além da nossa percepção, Vale a pena assistir!

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