Crítica – “Antes do Amanhecer”

Por Lucas Marques

Nota:***** (5 de 5)

A tarefa de argumentar ou propor uma discussão sobre a complexidade de relacionamentos amorosos é árdua – refletir esse contexto na tela de cinema é algo que exige uma condução narrativa refinada e adequada. De forma extremamente eficaz, o diretor e co-roteirista, Richard Linklater consegue essa proeza e realiza um dos filmes mais importantes do cinema americano da década de 90.

Essa temática, assim como o cinema em seu todo, é um reflexo (projeção) de nossos anseios, desejos, sentimentos e dúvidas.

Portanto, o que torna “Antes do Amanhecer” um exemplar distinto dessa gama, é a abordagem estabelecida pelo roteiro de Linklater e Kim Krizan – que optam por fugir de convencionalismos do gênero e constroem, meticulosamente, a situação real entre duas pessoas que, gradualmente, se apaixonam.

Uma das virtudes do longa reside no alto teor de cumplicidade que se estabelece entre espectador e tela – a ausência de trilha sonora, os diálogos triviais, o não uso de artifícios dramáticos e as longas tomadas com o casal de atores, contribuem para o realismo da situação; quase como que estivéssemos testemunhando, em tempo real, a germinação do amor entre duas pessoas.

Linklater não apenas estabelece essa conexão entre as personagens e o espectador, como enriquece seu roteiro inserindo uma série de diálogos, interessantíssimos, sobre filosofia, religião, sociedade e relacionamento humano. Diálogos, estes que não se apresentam apenas como caprichos fora de contexto, mas que exercem papel fundamental para que possamos conhecer e nos interessar pelo casal de indivíduos que estamos acompanhando ao decorrer dos 90 minutos da fita.

Certamente que a escolha dos atores foi imprescindível para a eficácia da obra – a verossimilhança – alcançada através da naturalidade, nuances e entrega aos papéis – conferem um carisma encantador ao casal, ou seja, não só eles estão se apaixonando, mas nós por eles. E, ao constatar, em seus minutos finais, a melancolia e frieza que os locais tão marcantes para os dois no transpassar da narrativa, adquirem, comprova essa afirmação.

E como já afirmou o mestre Woddy Allen na última fala de seu “Noivo neurótico, noiva nervosa”: “Um cara vai ao psiquiatra e diz: ‘Doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é um frango.’ O doutor diz: ‘Por que não o convence?’ O cara diz: ‘É, mas eu preciso dos ovos.’ Bem, acho que é o que acho dos relacionamentos hoje. São totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas continuamos neles porque a maioria de nós precisa dos ovos.”.

Assim, o que se pode concluir deste trabalho tão sensível e eficaz, é que por mais inócuo, egoísta, incompreensível, prazeroso e passageiro que o amor pareça, faz parte da natureza humana essa experiência – como Celine (Julie Delpy), afirma: “Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compartilhar algo com alguém […] sei que isso é quase impossível, mas e daí? A resposta deve estar na tentativa.”

Abraços e Vida Longa à Magia Cinematográfica!

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~ por habibsarquis em 20/05/2010.

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